terça-feira, 30 de junho de 2009

UMA VOZ NA ESCURIDÃO


A grade de ferro se abriu e fui jogado para dentro da imunda cela da prisão de Tullianum. O grande monstro de pedra escavada na colina do Capitólio da cidade de Roma, local onde os prisioneiros esperam a morte; condenados a priori pela fome, pela escuridão, pelo ar rarefeito e pela insuportável umidade. Sentia estar entrando nas profundezas do próprio reino de Plutão.
Os dois soldados encarregados de me trazerem ao cárcere deitaram-me no chão e finalmente libertaram-me dos grilhões que me prendiam os pulsos. Senti um alívio dolorido ao ver minhas mãos livres e ensangüentadas. Quando virei, apenas um soldado ainda me vigiava, segurando em sua mão a tocha que iluminou o nosso caminho por toda aquela noite, aguardava a volta de seu companheiro olhando-me com desdém; o outro havia ido pegar o livro onde escreveriam o meu nome, o meu crime e minha sentença: Acúrio, soldado desertor do exército romano da nona legião de Júlio César, condenado a morte.
Os dois soldados se foram esconjurando, pela traição, o meu destino. Os romanos estão cegos, não vêem que César é o verdadeiro traidor, não vêem que logo marchará contra Roma para destruir os ideais da República, eu precisava fugir para...
- É, a partir de agora, você será um desertor para sempre.
Eu mal havia me acostumado com a escuridão e uma voz fraca, em um latim quase indecifrável, cortou meus pensamentos.
- Quem está aí? – Perguntei. Não houve respostas. No entanto, aquela voz continuou a soar dentro de minha mente; já não sabia se era outro prisioneiro, ou se era minha própria consciência.
- É por isso que meu povo só registra o necessário.
- Quem é você? – Perguntei mais uma vez à escuridão.
- Já não sei se sou; sei apenas que fui um grande guerreiro, que na vitória e na derrota fui guiado pelos deuses e que fui o chefe dos celtas, ou... dos gauleses, como vocês nos chamam.
Eu me levantei e tentei, no escuro, seguir aquela voz. Dei uns dez passos a cegas e parei, foi quando tropecei em algo; era um corpo. Será que a voz na escuridão havia se incorporado? Tateei no escuro e senti um corpo vivo, que respirava. Embora a treva, que contaminava o ambiente, cegasse meus olhos, podia ver com os ouvidos o som do ar que lhe saía pela boca, podia ver com as mãos o corpo esquelético, a barba e os cabelos compridos daquele homem. Não havia dúvida, eu sabia quem ele era. Embora ele não tenha me revelado realmente sua identidade, pois a sua resposta, sempre que lhe perguntei o seu nome, era o silêncio, o silêncio que é capaz de descrever o inominável; eu sabia quem ele era: Vercingetórix.
- Há mais alguém aqui? – gritei.
- Não, apenas nós dois. – respondeu-me a voz.
Eu estava atormentado. Por que fui colocado na mesma cela do maior troféu de Julio César? Não sabia. Minha mente estava em ebulição, Marte devia estar ao meu lado. Eu poderia matar ali o indefeso chefe dos gauleses; poderia evitar que aquele traidor dos princípios republicanos desfilasse com Vercingetorix por Roma, demonstrando sua conquista e cumprindo o velho costume da cerimônia triunfal dos generais vencedores. César seria tomado pela ira ao saber que não teria seu brinquedinho para expor para a plebe romana.
Os deuses já haviam traçado o meu destino, não tinha nada a perder, porém, algo me fez hesitar. Por mais que sua morte enchesse de ódio o maior inimigo da Roma republicana, não seria nada virtuoso atacar aquele corpo indefeso, não poderia desrespeitar daquela forma infame este grande guerreiro.
Após alguns minutos em silêncio, o gaulês resolveu retomar a conversa.
- E então, desertor, não vai me contar a sua história?
- Você já ouviu: sou um desertor do exército romano. – Falei meio ríspido.
- Isso é o que você será daqui para frente: um desertor; mas quero saber quem você foi?
Eu não sabia quanto tempo teria que dividir a cela com aquele homem, mas achava que só quando um de nós fosse levado para a morte nos separaríamos, assim, resolvi não criar inimizades e respondi sua pergunta:
- Eu sou Acúrio, ex-soldado da nona legião de César. Nasci em Alexandria, mas vim para Roma ainda criança acompanhando os meus pais, eles eram mercadores e resolveram vender produtos do Oriente aqui em Roma; estes romanos realmente gostam de quinquilharias do Egito. Quando os meus pais morreram, como não tinha nenhum familiar vivo na cidade, resolvi me alistar no exército romano e lá estive até este momento.
- Olha só, você não é apenas um traidor. – O gaulês gargalhou estrondosamente, devia ter alguns anos que não ria daquele jeito. – Mas, então, por que desistiu do exército romano?
- Júlio César é o verdadeiro traidor. Muitos soldados da minha legião sabem que o Cônsul está planejando acabar com a República, mas não fazem nada; são um bando de covardes.
- Resolveu morrer por um ideal. Muito belo da sua parte, porém, ninguém se lembrará disso. Você será apenas um desertor, seu destino foi escrito naquele livro que estava com os soldados que lhe trouxeram.
- Eu não sou um desertor! – Falei irritado. – Estava tentando fugir da batalha para avisar a Cícero ou a Brutus o que César estava planejando. Arrisquei-me mesmo sabendo que seria condenado à morte se fosse pego.
- Eu sei que você não é um traidor, mas as pessoas que irão ler aquele livro não terão a menor dúvida de que você é. É fácil recriminar as ações de um indivíduo sem conhecer suas histórias pessoais. – falou o gaulês.
- Não estou entendendo. O que você está querendo dizer com isso? – perguntei.
- O que estou querendo dizer é que a História do mundo ultrapassa as histórias individuais, e são os nossos vestígios que são eternizados. Ao que parece, o único rastro da sua existência é um livro que te acusa de traição ao exército romano. Embora o meu povo se utilize do alfabeto grego para escrever algumas coisas, nossa religião, comandada pelos druidas, não permite que escrevamos muitas coisas, pois temos medo de eternizar o erro.
- Você está dizendo que as pessoas vão deduzir quem sou apenas pelo que está naquele livro que cataloga todos os condenados?
- Infelizmente, sim. A escrita é uma voz sem rosto. Quem escreve está preso a um hic et nunc, ao presente, as suas circunstâncias. Quem lê está separado de quem escreve; separado deste agora que se perde, substituído por um outro agora, que é o da leitura, e esta separação tende a essencializar o que foi escrito. Um desertor não se torna um desertor circunstancial, mas sim um desertor ontológico.
Sempre aprendemos a olhar os gauleses e os povos não romanos como bárbaros. Parecia-me impossível que tanta sabedoria poderia impregnar este outro que construímos e que deveria ser a antítese dos romanos; se éramos a incorporação da sabedoria, eles deveriam representar a ignorância, se éramos a luz, eles deveriam representar a escuridão.
O gaulês, percebendo o meu silêncio, talvez soubesse que eu estava imerso em meus pensamentos, resolveu continuar:
- Nosso povo mantém suas tradições oralmente. Muitos, ensinados pelos druidas, aprendem de cor uma enorme quantidade de versos com as histórias de nossos antepassados, assim, passado, presente e futuro se unem em uma só temporalidade. O saber herdado se incorpora. O que se aprende torna-se o que se é.
- É o contrario do que acontece com a escrita, não é? – falei.
- Sim. – respondeu o gaulês de maneira sintética.
- A escrita, por causa da separação temporal entre leitor e escritor, entre produção e reprodução, pode produzir o erro. Quem ler aquele livro, que conta apenas alguns fatos da minha história, pode me eternizar como um desertor. Uma mentira será eternizada.
Quando finalmente havia entendido o que o sábio gaulês estava tentando me dizer, os dois soldados romanos voltaram com sua tocha para me buscar:
- Cela errada, seu desertor de merda; vamos te levar para outro lugar.
Eles me puxaram pelo braço e me levaram para este lugar fétido que estamos agora. Quando a tocha se aproximou vi o corpo debilitado do gaulês, porém, seu rosto continuou uma incógnita. Bem, Hoplias, querido amigo que fiz nesta cela imunda, esta é a história do dia em que conheci Vercingetórix, um grande homem. Você sabe que na próxima lua serei morto e por isso gostaria de lhe fazer um pedido: Conte essa história a todos aqueles que dividirem esta cela com você, não quero ser para sempre um desertor, quero uma eternidade diferente, quero permanecer vivo em cada vez que esta história for contada. Por favor, você é a única chance que tenho de ter um final diferente do que foi escrito naquele livro. Conte a história do dia em que aquela voz na escuridão me revelou o segredo da eternidade.

Um comentário:

fernando disse...

De nada adianta. Todos nós sabemos da falsidade disso tudo, mas continuamos escrevendo e registrando e escrevendo e esquecendo e registrando... ao passo que o que realmente faz a vida não há como escrever, é agrafável, só se sente. E "como escrever a História assim?" é o que se pergunta. Mas, antes, qual a necessidade de escrever essa História? Não faz sentido...