quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O HOMEM E O RIO



O trânsito parou. A pressa e a escravidão, que nos são submetidas pelo relógio, levaram todos ao imobilismo do engarrafamento na marginal Tietê. O mundo da via-expressa solidificou-se em carros praticamente estacionados na pista. A marcha proletária de séculos atrás, transformou-se, hoje, no anti-tráfego da classe média. Os noventa quilômetros sinalizados na placa são uma utopia irrealizável por essas horas da manhã.
O rádio é inútil. De que me adiantaria notícias sobre as condições do trânsito? Nada. De que adiantaria para aquele que está na chuva a notícia da tempestade? Antes que o locutor noticiasse o tamanho do congestionamento, desliguei o aparelho. Há certas horas, no turbilhão de um problema, que preferimos a ignorância à verdade. Se fosse dada a um preso, a oportunidade de desconhecer sua pena, talvez sua vida se tornasse melhor, pois desejaria, a cada dia novo, que aquele fosse o dia do fim de seu cárcere. Não me interessava saber a verdade enquanto o meu estômago pronunciava um som sem palavras, um som de quem reclama a falta do desjejum em detrimento da pressa e da pontualidade. A exatidão numérica de minha aflição, só tornaria mais distante a coragem de enfrentar o mar de automóveis parados até onde minha vista podia alcançar.
Meu carro havia se tornado uma prisão, uma prisão particular. Sentia um pouco de inveja daqueles que compartilhavam o enclausuramento com amigos ou familiares. Lutamos tanto por nossas liberdades individuais, por nosso direito de ficar sozinhos, porém, não agüentamos a insuportável presença de nós mesmos. Nestas horas, ela ganha o peso da eternidade. Sentia, da mesma forma, inveja dos motoqueiros que passavam velozes entre os carros, estes voavam como mensageiros dos deuses, e eu permanecia acorrentado como um Prometeu. Nesta hora da manhã a revolução se faz possível; moto-boys escoam pelas brechas do trânsito como água nos encanamentos; voam enquanto seus chefes estão presos no tráfego. Liberdade de movimento; nestas horas da manhã é virada a mesa.
A vontade é de ir a pé. Sair, deixar o carro, e ir a pé, mas não posso, já disse que o carro é uma prisão. Provavelmente, eu pertenço mais às coisas do que elas a mim. Eu queria ter a coragem para mudar essa situação, mas não posso, sou muito fraco. Tanto trabalho para dominar as coisas, para descobrir, quando se está preso em um engarrafamento, que são as coisas que te dominam. É frustrante.
Frustrante mesmo seria se eu quisesse mudar, mas não quero. A infelicidade está aí: querer algo e não ter. Agora, me sinto extremamente infeliz, porque desejava não estar preso neste congestionamento. Fora deste trânsito, porém, minha vida tem uma normalidade feliz. O segredo da felicidade é simples: basta viver entre as suas possibilidades e os seus desejos; fácil assim. Não busco mudanças irrealizáveis, não desejo bens cujo meu dinheiro não pode comprar, não saio do meu espaço seguro que está entre o real e a minha ambição. Desta forma, posso até dizer que estou levemente feliz por estar aqui, neste engarrafamento. Já não desejo sair, pois desejar, já é sofrer pelo impossível.
Um quadro imóvel havia sido pintado. Era definitivamente o anti-tráfego. Estava tudo parado. Até as motos começavam a se enfileirar entre os vãos dos carros. Tudo parado. Encostei a cabeça no banco, fechei os olhos e sonhei acordado. Imaginei-me em uma São Paulo pré-São Paulo, onde o rio Tietê era acompanhado por enormes planícies verdes, o ar era puro e eu caminhava livre por suas margens. Voltei a mim com a sinfonia de buzinas que se iniciava; o que deixava a situação ainda mais difícil. A cacofonia era insuportável, porém, não sei até que ponto mais insuportável do que o silêncio do cárcere automotivo. No insustentável silêncio que se fazia, a ladainha de buzinas era uma prece para o fim daquela situação; uma forma de unir a todos na mesma reclamação. Resolvi buzinar, também tinha o que reclamar.
Como em uma ação que leva a uma reação, depois de minha buzina o homem que estava preso no carro da frente tomou para si a sua liberdade. Saiu do carro e foi em direção ao rio. Em princípio pensei que era o stress que caminhava para tirar satisfação, mas não, ele nem me olhou. Ele foi em direção ao rio, sem olhar para trás, sem esconjurar a vida: sereno.
A serenidade dele era incômoda. Ele olhava para o rio como quem olha para o mesmo rio de minha pré-São Paulo, não para o Tietê que conhecemos: sujo, poluído, canalizado ao redor de uma cidade cinza. Ele olhava para aquele rio como se visse beleza naquilo. A sua serenidade me incomodava, e me incomodava o fato de eu não ter conseguido lhe dar o troco. Ele não tinha se afetado com a minha buzinada; não xingou, não foi tirar satisfação, nada.
Resolvi buzinar de novo. Não era de bom tom abandonar o carro daquele jeito no meio da pista; e se – se mesmo – o trânsito andasse? Buzinei. Nada: irredutível; ele nem sequer olhou para trás. Ele continuava olhando o rio, admirando a paisagem cinza e escutando o gorjear das buzinas.
Voltei-me a concentrar nas planícies da minha pré-metrópole. Aquilo era belo. Caminhava solitário pela vegetação rasteira que circundava as margens do rio. A minha volta, imponente estava a Mata Atlântica, que não era ainda uma memória. Nesse meu caminhar, vi o homem que olhava para o rio serenamente; ele já estava lá, mesmo em tempos imemoriáveis. Como era agradável o som doce da cantiga propagada pelo vento tremulando as águas do rio. Talvez fosse a música, mais do que a beleza visual daquele lugar, que atraísse o homem.
Haveria beleza na cacofonia da cidade? Ainda era, para mim, incompreensível aquela entrega ao rio sem vida. Se ainda o rio tivesse se mantido o mesmo daqueles outros tempos, onde ainda era possível escutar o concerto dos ventos sobre a água... Mas não tinha; o rio estava morto. Há beleza na morte? Aquele homem olhava a morte tão serenamente que eu, de incomodado, passei a temê-lo. Tenho que dar graças por ele não ter se incomodado. Alguém que olha as águas sem vida com tal naturalidade, não teria, penso eu, o menor problema de matar. Escutamos rotineiramente sobre mortes no trânsito por causa de discussões bobas; morreria eu por causa de uma buzinada?
O que ele tanto olha para aquele rio? Desde que saiu do carro permaneceu na mesma posição; incorruptível. Uma vez, eu li em uma revista uma matéria sobre “o prazer de matar”; neste artigo havia entrevistas com caçadores, assassinos e até um alemão que trabalhou em Auschwitz. O que mais me assustou foi a declaração de um condenado por assassinato que disse que, após a morte, gostava de ficar vendo o corpo da vítima se decompor. Ele escondia o corpo em um lugar aberto, porém, escondido – como em uma mata fechada – e ia visitar a morte semana a semana. Aquele homem estava parado vendo a morte, o rio morto, a decomposição de uma cidade, e era isso que me assustava.
Não, ele não olhava a morte. No passado vivo do rio, ele continuava a olhá-lo do mesmo jeito, com os mesmos olhos serenos. Não era a morte que olhava, era o rio em si. Ainda longe daquele homem, sentei-me nas margens do Tietê e procurei entender o que ele tanto buscava. Mal me sentei, saiu das águas uma criança linda; uma menina branquinha, cabelos castanhos, verdadeiramente uma flor. Ela chegou perto de mim e sorriu. Eu logo tirei minha camisa para cobrir sua nudez, mas ela recusou:
- Obrigada, logo terei tudo o que eu quero.
Aquela frase soou como um nada dissonante em meus ouvidos. Ofereci novamente a camisa para cobrir-se e ela apenas sorriu, balançou a cabeça e sentou-se ao meu lado. Aquela pequena flor, que deveria ter uns dez anos de idade, tinha um ar atemporal no seus traços e feições, como se estivesse perdida no tempo e no espaço. Sempre imaginei que a São Paulo pré-colonial fosse habitada apenas por índios. O que fazia ela lá?
De volta à cidade cinza, eu continuava olhando o mar de carros estacionados na via-expressa. Carros e motos enfileirados, tudo parado. E ainda estava ele lá, o homem, incorruptível. Por que olha tanto para o rio? A cidade pulsa. Apesar do congestionamento, a cidade pulsa. Do outro lado da marginal o trânsito flui fácil, a cidade respira, a cidade trabalha. Olhando para os carros ao meu lado, todos estavam em atividade; uns digitando no laptop um relatório a entregar, outros falando com dois celulares ao mesmo tempo tentando fechar negócios; e, nos carros de vidros fumês, quem sabe? Todos estavam em atividade. Aquele congestionamento era a horizontalização de um edifício; cada carro era um apartamento que vivia por si próprio. A vida pulsava na cidade e aquele homem lhe dava as costas para olhar o rio morto. Foi então que entendi.
Aquele homem estava literalmente dando as costas para a vida. A única explicação possível para sua admiração pelo rio era o seu desejo de morte. A cidade pulsava e ele negava aquela pulsação. A cidade corria, apesar do congestio-namento, e ele negava aquela movimentação. Ele admirava o rio morto. Ele desejava o rio morto.
Talvez minha buzinada tenha sido o estopim para seu desejo suicida. Tenho que admitir, foi minha culpa. Talvez aquele som tenha sido a gota d’água de sua paciência para com a vida, para com a cidade. Eu não posso carregar o peso da morte sobre mim, tenho certeza. Talvez seja melhor eu lhe convencer a não saltar. Mas se sair do carro e dar as costas para a cidade, também estarei dando as costas para vida que pulsa; talvez ele me leve junto consigo para as profundezas do Tietê. Não, não quero a morte.
A garota continuava sentada ao meu lado em silêncio na pré-São Paulo. Olhávamos o rio de onde ela nasceu para mim; aquele pequeno anjo.
- Qual é o seu nome? – perguntei.
Ela se levantou e suspirou no meu ouvido sua graça.
- Sério? Então, eu acho que lhe conheço. Sim, você está diferente, mas eu acho que lhe conheço. Mas o que faz aqui nestes tempos imemoriais?
- Eu tenho fome. – respondeu a menina meio que mudando de assunto.
- Vou ver se acho alguma fruta para você comer. – respondi e sai para procurar algo para alimentar a pequena menina.
De volta ao presente, ainda tentava conciliar a minha culpa por ter plantado o desejo de morte naquele homem. Ele olhava para o rio hipnotizado por suas águas turvas. Iria pular a qualquer momento, eu previa. Não havia outro motivo para a serenidade daquele homem ao olhar a morte líquida e turva. Ele iria pular.
A cena de sua saída do carro; decidido em direção ao rio, reverberava em minha mente. Era a cena de quem nega a vida, a vida de uma cidade que pulsa; era o peso da tragédia moderna, era a minha buzina assassina.
Logo, voltei com uma maça para alimentar a pequena flor que havia nascido do rio.
- Lhe trouxe uma maça. Espero que você goste.
A menina arrancou a fruta de minha mão e a engoliu em apenas uma mordida.
- Quero mais. Ainda tenho fome. – declarou a pequena.
- Eu vou pegar mais uma para você.
- Não. Eu quero a árvore inteira.
- A árvore inteira? Você tem certeza que consegue comer a árvore inteira? – declarei rindo, como se aquela frase só pudesse ser pronunciada pela ingenuidade.
- Sim, quero a árvore inteira. Eu sempre tenho fome. Onde está a macieira?
- Daquele lado, ali. – apontei para o lugar onde havia encontrado a árvore e a menina saiu correndo na direção que lhe falei. Sumiu.
O homem continuava olhando o rio morto. O homem continuava olhando o rio vivo. O mesmo homem; rios diferentes. Porém, aos poucos o Tietê do passado ia tomando a forma do presente: as águas iam escurecendo, a vida sendo morta; o homem sendo o mesmo, o tempo sendo uno. Sonho e vigília era apenas uma dura realidade: a cidade cinza que pulsava.
Foi então que aconteceu: incômodo, medo e culpa; o homem se virou, olhou para mim profundamente e caminhou em minha direção. Incômodo, medo e culpa; eu não sabia do que aquele homem seria capaz. Chegou perto do carro e bateu no vidro, eu, mesmo apavorado, abri. Ele abaixou e suspirou no meu ouvido:
- Você nunca deveria tê-la alimentado. Ela sempre tem fome.
- Ela sempre tem fome. – repeti.
“Logo terei tudo o que eu quero”, ela havia me dito e, realmente, conseguiu. Tornou-se uma velha gorda que devora tudo o que vê pela frente. É ela quem parou o trânsito; sentou-se na frente dos carros e impediu o tráfego. Parados: esperamos apenas a hora que ela venha nos devorar.

3 comentários:

SINOTTI disse...

Excelente , esta de parabéns , um conto que manifesta uma visão fátidica da realidade e sua rotina (urbana).Acredito que você se lembrará de mim, sou do colagem ultra, conversamos no trem sobre BAUMAN , ou melhor te abordei...
abraços.
SINOTTI

fernando disse...

Cheguei a achar que a menina se parecia muito com a Sofia (D'O mundo dela), agora penso que a menina pode ser a própria São Paulo. E pode muito ser ela... só que, neste caso, não pensaste na SP pré-SP, pensaste na SP pré-o que vc acha q é SP. Seria muito bom desconhecer SP, o pavor seria reconhecê-la. Enfim, provavelmente seja a morte, mas prefiro a versão da SP. Pois eu sou livre para escolher minha versão. Ou, pelo menos, eu acho que a liberdade tem a ver com este fator individualizante. Dessa forma, a Liberdade seria exercida no sujeito subjetivo. Mas foi isso que levamos anos prá conquistar?

fernando disse...

outra coisa.. acertaste no emprego de "cacofonia" ?