quarta-feira, 8 de julho de 2009

TIO?!


Era cedo, algo entre cinco e meia e seis da manhã. Saí de casa apressado; sem café, sem banho e sem paciência. Era segunda-feira, o primeiro dia de uma via crucis eterna que sempre me levava a ressuscitar no domingo; não uma ressurreição de glória, mas uma ressurreição que me levava à escravidão, apenas um recuperar de forças para mais uma semana de sofrimentos.
Saí de casa e olhei para o céu pintado com um azul de noite quando foge; essa era exatamente a cor do escritório que seria o meu cárcere durante o dia inteiro. Era o céu que logo cedo me lembrava o meu destino.
Pacientemente esperei o sinal fechar. Todo dia, no mesmo semáforo, as mesmas pessoas esperavam para atravessar a rua. Todo dia, nenhum sorriso, nenhum “oi!”, nada; apenas a ansiedade de seguir. Às vezes – não sabia se era minha imaginação – eu achava que via os mesmo carros, enquanto atravessava a rua, parados no semáforo, esperando a abertura da válvula para o contínuo fluxo de automóveis.
Quando finalmente o semáforo ficou vermelho para os carros e verde para os pedestres, contente, pisei na rua para atravessar; foi então que ouvi:
- Psiu!
Ignorei e continuei a cruzar a rua.
- Psiu!
Novamente escutei o chamado e resolvi olhar para trás para ver se era a mim, realmente, a quem chamavam. Ao virar, me deparei com um menino aos trapos, sujo e descalço.
Fiz com os olhos uma expressão como quem dissesse: “o que foi?” ou “o que você quer?”, expressão que ele prontamente entendeu me respondendo com um movimento de lábios sem sonoridade alguma. E, isso foi o que mais me assustou, aquele não-som era terrível, era uma espécie de réquiem cantado em minha homenagem. Não me atrevi a ignorar tão poderosa música e, mesmo atrasado para o trabalho, retornei para tentar compreender as palavras do garoto.
- Desculpe-me, não consegui escutar o que você disse.
- Tenho fome. Por favor, tio, compra alguma coisa para “mim” comer.
Fiquei parado ali olhando aquele trapo humano e ele parado me olhando esperando uma resposta, uma comoção, qualquer coisa que tirasse o aperto, a dor, o som de seu estômago que de faminto comia a si próprio, matando-se para sobreviver. Por alguns segundos fiquei sem reação, algo me incomodava naquele garoto, algo me fez hesitar alguns momentos antes de tirar alguns trocados da carteira e lhe dar. O que seria? Será que essa cidade havia congelado minha alma? Será que havia perdido a humanidade? Não sabia, só sabia que aquele garoto não merecia meu dinheiro. Não merecia um trocado da porra do dinheiro suado que eu ganhei. Dinheiro que eu ganhei levando uma merda de vida, acordando cedo, dormindo tarde, fazendo hora extra... Esse fedelho não merece um mísero trocado meu. Fome? Eu não tenho fome, trabalho para não ter fome, estou sempre saciado, cheio, empanturrado e sem fome. Não sei por que como, há muito tempo perdi a vontade de comer.
- Tio?!
O moleque me chamou e me trouxe de volta à realidade.
- Desculpe-me – disse. Abri a minha pasta e comecei a fuçar como se procurasse algo; dinheiro, carteira, etc., era puro teatro. Na verdade, ainda não havia decido se aquele garoto mereceria o meu dinheiro. Olhem aqueles olhos. Olhos de quem pode levar o mundo sob suas costas. Olhem este corpo esquelético. Corpo de quem pode sentir todo frio e fome do mundo. Olhem para mim; o que sei sobre isso? Nada. Quem precisava de ajuda?
Fingi que não havia achado o que procurava na pasta e comecei a mexer nos bolsos do meu terno. Eu poderia ter dado alguma coisa para ele; seria fácil abrir a carteira e lhe dar um, dois, cinco ou até dez reais, não me faria falta, mas não seria justo. Dar-lhe qualquer quantia de dinheiro seria diminuir-lhe, seria rebaixá-lo à necessidade. Eu que era um pobre de espírito que lhe daria a porra do dinheiro para me enaltecer. Provavelmente, esperaria o sinal fechar novamente para fazê-lo na frente de todas aquelas pessoas paradas na calçada. Talvez não se importassem, talvez soubessem como eu a linha tênue que separa o egoísmo do altruísmo. Não poderia ajudá-lo, era eu quem gostaria de lhe pedir ajuda, no entanto, disse:
- Desculpe-me, estou sem dinheiro hoje – e saí andando.

Um comentário:

fernando disse...

O melhor a dar para uma criança assim é uma palavra. O difícil é que já não damos palavras nem para uma pessoa igual a nós, o que dizer então de pessoas que a sociedade tem medo!?