quinta-feira, 2 de outubro de 2008

CONTO XII - DUAS NOITES


Soberana. A partir do momento que ela estende seus braços sobre a cidade, se torna soberana. Só ela guia as regras. A noite desamanhece a manhã e se impõe, imponente, impostada, impostora sobre os homens. Todos eles com sua lida comum, sua vida regrada, sua ida marcada. Homens prepotentes, previsíveis e predicados, homens apagados pela ausência de sol. A noite é soberana e, a partir daí, não há mais explicações, não há subjetividade, não há dúvidas hiperbólicas, só há o anoitecer ontológico dos tempos onde os homens não se preocupavam com as coisas, apenas eram e esperavam acontecer.
A noite trava as máquinas da sociedade, pelo menos a maioria delas, e leva para casa os operários em fila que, apertados em um público transporte de indivíduos, estão muito cansados para pensar na vida. Eles só querem o lar, a comida quentinha da Dona Maria, o beijo cotidiano de quem os espera no portão. As horas cansativas e alienadas na prensa prensam seus músculos e os leva a desejar o sono, o sonho e o sábado. A luta no sol é cansativa e muitos preferem a noite do descanso, do descaso e da televisão.
A noite emudece, silencia aqueles que querem subverter a ordem. O descanso é sagrado e o sono é necessário. O problema da civilização é justamente os questionamentos dos homens sobre si mesmos e sobre a vida, além de toda falta de humildade presente na arrogância da busca pela Verdade. À noite reina a igualdade, todos dormem, seja o patrão, seja o peão. O sono dos homens é necessário.
Ao anoitecer o eu, o nós, o eles, se recolhem em suas casas respeitosamente. A noite é o melhor horário, é sublime, é o melhor dos tempos para muitos dos homens, pois, a tradição é relembrada num jantar de família, onde pais, filhos e netos se encontram e se congregam, seja numa casa de campo, seja numa propriedade da Haddock Lobo. A noite dá tranqüilidade a todos aqueles que a respeitam e lhes entregam a missão de guiar a humanidade. Para estes a escuridão não dá medo, é conforto, pois haverá sempre a luz de um abajur a velar-lhes o sono.
A família dorme, mas a filha mais nova permanece acordada. O anoitecer havia lhe deixado pensativa. Olhava para lua que era a luz de esperança, para todos aqueles que tinham medo das trevas, permitida, talvez por descuido, pela censura da escuridão noturna e pensava no amor do homem que lhe fazia feliz, que havia saído e ainda não havia ligado. O anoitecer o tinha tirado forçosamente de seus braços, todos tinham hora para chegar e para sair.
Em outra casa qualquer, outra mulher espera pelo mesmo rapaz e, assim como a primeira, lhe tem amor igual, porém, não do mesmo tipo, este homem é seu filho, está mulher é sua mãe que sentada na escada, espera sua volta. Ela lhe espera ainda com a toalha na mesa, seu prato e seus talheres expostos e o resto da comida para esquentar. Preocupada com os perigos da noite reza pela sua chegada.
A noite que separa os amantes e os filhos de suas mães, torturando o coração dos pobres que não querem confessar o quanto sofrem por esperar o dia, também une os corpos em segredo. Em quarto, em quatro, paredes que escondem as intimidades e o gozo dos seres, lhes deixam satisfeitos e desejando a noite eterna. A escuridão do quarto que esconde os prazeres é a escuridão que lhes aprisiona. Gozo e sono, necessidade.
A noite da lua, a noite das estrelas, a noite dos ventos que balançam as janelas e causam arrepios a quem não deveria estar acordado, também esvazia as praças e o público espaço da cidade. Quando é noite, os homens não conversam, deixam os assuntos por resolver, guardam suas opiniões para si ou, apenas, comentam com seus familiares. A noite traz a paz do consenso criado por ela, leva pra longe a belicosidade dos homens discutindo e tentando impor suas idéias. Aqui, quem impõe é ela, ela nivela todos ao silêncio.
Talvez as crianças não entendam o anoitecer, talvez o sol que permite a brincadeira lhes seja mais interessante, mais agradável, porém, um dia entenderão que a noite se mostra soberana para regular o mundo utópico de alguns que acham que detêm as verdades para todas as perguntas e as chaves para o progresso. Por mais que chorem e lembrem-se do tempo dos jogos na rua, é preciso adormecer.
A noite pára o crescimento. As flores sem luz não desabrocham, as árvores sem luz não fazem sua fotossíntese. A noite faz os homens negarem o presente, eles apenas deitam e sonham, sonham com uma vida melhor, sonham com a volta do passado confortável. A vida se torna sonho ao anoitecer.
Há também aqueles que, lutando contra as horas de sono impostas pela noite, sonham acordados. São os poetas, os malandros, os bandidos, os animais. Os gatos e cachorros abandonados e sarnentos saem pelas ruas, derrubando latas, rasgando sacos de lixo para buscar seus alimentos, um resto de maçã, um bife quase podre, qualquer coisa que faça se esconder a fome. Os poetas olham a lua com a esperança de um dia, o dia desanoitecer a escuridão. Andam escondidos, fazendo rimas, disfarçando sinas e cantando o amanhecer. O malandro anda procurando sua mulata, sua gata, o seu bem-querer, para fazer da noite um espaço, onde possa amar sem paredes aquela que ele viu pela primeira vez. Os bandidos, ou aqueles que são considerados bandidos, desafiam a escuridão, com uma arma na mão, procurando confusão e tentando disfarçar. Para os animais a carrocinha, para os homens o camburão. Não é por mal, mas a noite já proclamou: “o sono é necessário, os homens precisam dormir”; assim, qualquer pessoa que atrapalhe o descanso dos seres de bem, deverá ser punida.
A noite mata o homem, para o próprio bem do homem. O sono é o melhor para todos. A noite quer representar segurança, quer velar-lhes as horas noturnas, o descanso, para não precisarem se preocupar, mesmo assim continuam lutando contra o seu poder soberano. A noite é. Na noite as coisas são, são como ela pensa que devem ser, e faz isso para o bem de todos, para não precisarem se preocupar, não precisarem se questionar, para que possam dormir tranqüilos e em paz, sem a turbulenta subjetividade humana. Ela parou as máquinas, calou os baderneiros, escondeu os amantes na privacidade, trouxe a ordem, mas a luta continua, o dia quer nascer e o homem quer acordar.
Ela sente que está perdendo o terreno, sente que está perdendo seu império, os despertadores estão preparados, os sonhos estão acabando. Ela deixa, ela permite algumas luzes sobre a cidade, talvez para tentar satisfazer algumas exigências dos excluídos, mas não adianta, eles querem o dia, eles querem o sol a pino, eles querem as flores desabrochando, eles querem a fotossíntese. A noite é personagem que dissimula. Sentindo que iria perder sua soberania, ela, soberana, desanoitece a manhã e retira seu manto negro sobre a cidade.
Os homens acordam indispostos, sem saber o que fazer. Sabem que terão muito trabalho pela frente. Os olhos remelentos demonstram que dormiram demais. Alguns choram pela noite que foi, pela segurança e pela ordem que eles achavam que ela trazia. Agora não há mais noite, apenas metafísica. Agora não há mais sono, são apenas os homens acordados se preparando para a lida dura. A subjetividade está livre, podem dizer o que quiser sem meias-palavras, podem gritar, podem cantar o dia. Agora é hora da responsabilidade, eles se soltaram das confortáveis algemas do sono, para construir com a liberdade fria e dura um mundo melhor. Alguns se levantam da cama e vão tomar banho frio, outros viram para o lado e voltam a dormir. Estes sempre estarão a dormir.

sábado, 20 de setembro de 2008

Conto XI - Caim e Abel


Um silêncio escuro. O homem estava sentado em seu sofá em plena escuridão, não quis acender a luz da sala e muito menos ligar a televisão ou o aparelho de som, era apenas ele sentado em um silêncio escuro. Não quis descansar suas costas no encosto do sofá, não quis parecer a si mesmo muito relaxado. Também não quis ficar de pé, nem mesmo sentar-se em uma cadeira dura e gelada da cozinha. Se tinha de esperar que fosse com conforto. Por mais incrível que pudesse parecer, nada passava por sua mente. Algumas vezes lhe dava uma vontade quase incoercível de sorrir, mas ele, no final, conseguia dominar essas forças doentias, e ele sabia que eram doentias, e segurava o sorriso. Os minutos não passavam, ele não tinha um relógio por perto, mas sabia que não passavam. Eles estavam demorando, talvez nunca viessem, talvez devesse se entregar. Conforme a noite ia ocupando seu espaço a sala ficava mais escura e ele, cada vez mais, era consumido pelas trevas. O silêncio foi interrompido, era a campainha. Ele se assustou de início com aquele alarme, paradoxalmente, inesperado e tão aguardado. Aquele som ecoava dentro de sua sala e preenchia o vazio negro do cômodo. Ele se levantou devagar, respirou fundo e foi até a entrada. Puxou a porta arrombada que ele havia recolado no lugar e tentou com cuidado abrir aquele objeto que o separava do lado de fora, que o separava dos tão aguardados visitantes e disse seguro: “Boa noite, estava esperando vocês”.
Ele abriu a porta e deixou um pouco da escuridão presente no cômodo sair. “Só um instante. Vou apenas pegar minha carteira, não demoro”. Os quatro homens que esperavam do lado de fora se olharam desconfiados. Com um olhar, um deles, que parecia ser o chefe, indicou ao mais novo para acompanhar aquele estranho. O rapaz cumpriu a ordem, porém, foi inútil. O homem só havia ido pegar aquilo que prometera na cômoda da sala, nem trinta segundos se passaram, quando aquele ia começar a seguí-lo, este já estava voltando. “Sem algemas, por favor. Não vou reagir”, pediu. Os quatro homens se olharam novamente e concordaram com o pedido daquele que iria se juntar ao grupo. O homem recolocou a porta de sua casa no lugar, do melhor jeito que foi possível, e vez sinal com a cabeça para anunciar que estava pronto. Saíram, os quatro homens formando um quadrado e ele no meio. Enquanto desciam as escadas do prédio mal cuidado em que morava, aquele homem começou a pensar em sua própria história e como tinha chegado naquela situação.
O começo dessa tragédia é tão velho quanto o próprio mundo, desses contos que parecem ter sido propagados pelos quatro cantos desde o começo dos tempos. É necessário voltar um pouco atrás, se for preciso até eras remotas, para entender o fio que teceu esse acontecimento e que, de alguma forma, por destino ou liberdade, manchou de sangue os caminhos por onde a cidade se movimenta.
Tudo começa com um nascimento, pois, não há melhor ocasião, neste caso, para entender os tormentos que se seguirão. A criança nascera, chorava como se já soubesse seu destino. Os pais lhe deram o nome de Caim, nome perigoso e que parecia querer desafiar a história ou até mesmo Deus, como se lhe tentasse dizer: “Olha aqui, meu filho nasceu e é livre para fazer o que quiser e escolher o seu caminho, não cairá sob seus desígnios”. A mãe, apesar de não gostar muito do nome, resolveu aceitar o sugerido pelo pai.
Alguns anos depois nasceria o segundo filho do casal. A gravidez foi extremamente complicada e a criança e a mãe corriam risco de morte. O pai desesperado fez uma promessa daquelas que olhamos para cima, mas não sabemos ao certo a quem pedir, cujo desespero nos força, para dar sentido a nossa própria existência, a acreditar em algo maior do que nós mesmos, mesmo que temporariamente e como uma forma de barganha. Assim, o homem se ajoelhou na capela do hospital e sem saber para onde direcionar sua súplica, olhou para imagem do cristo crucificado e prometeu que, se tudo desse certo, se a mãe e a criança saíssem com vida, o menino que estava por vir, chamar-se-ia Abel.
Tudo correu bem. A criança nasceu e recebeu o nome prometido. Muitos advertiram os pais sobre o perigo que era a escolha destes nomes, advertência a qual respondiam sempre com tom gozador: “Fique tranquilo(a), não nos chamamos Adão e nem Eva”. Os dois não eram dados a essas superstições bobas, porém, a promessa feita era muito séria e deveria ser cumprida.
As crianças cresceram bem, mas, talvez fosse mais certo dizer que cresceram com saúde. Os dois filhos sempre apresentaram um comportamento bem estranho. Caim vivia isolado, não gostava de falar com ninguém, se incomodava com a presença dos outros. Abel era o contrário, falador, sorridente, porém, enérgico e mimado, com uma certa tendência à violência. Caim, apesar de ser mais velho, não colocava respeito, seu jeito introvertido sempre fazia com que o mais novo levasse vantagem sobre ele. Eram um problema para os pais.
Caim aos quatorze saiu da escola, mas nem por isso era um rapaz ignorante, sempre foi dado aos livros, esta era, de certa forma, uma maneira de fugir do mundo e do 'outro' que lhe ameaça. Aos dezessete, com a ajuda de seus pais, resolveu morar sozinho. Era um apartamento num lugar bem tosco, nos arredores da praça da sé. Era um lugar barra pesada, mas onde pelo menos poderia ficar sozinho, longe das pessoas, longe de seus pais, longe de seu irmão. Abel, na mesma idade que Caim, também largou a escola e, para piorar, se envolveu com drogas. Chegou até a passar alguns meses em uma clínica para sua recuperação. Aos dezoito já era pai, tinha duas filhas, cada uma com uma mulher diferente, ou seria melhor dizer menina diferente, já que as duas eram mais jovens do que ele.
Geralmente os pais são mais afetuosos com os filhos menos problemáticos, mas como alguns bradam que amor de mãe, amor de pai, é tudo igual independente do filho, talvez fosse melhor dizer que sentiam mais orgulho do filho menos problemático. Nesta família, família tipicamente burguesa, porém, essa regra não se aplicava, afinal, era escolher entre o 'mauricinho' briguento ou o estranho trancado em sua 'torre de marfim'. Esses problemas eram resolvidos com dinheiro, talvez ele por si só pudesse educar os dois adolescentes: cartão de crédito, carro, roupas de marca, pensão para as meninas-mães, para Abel; livros, aluguel do apartamento, compras do mês, para Caim. De um lado, o dinheiro apoiava para tentar invocar uma mudança no comportamento, no outro, para afastar para longe o problema. E assim cresceram os dois irmãos, ambos sustentados pelos pais.
Caim já tinha 30 anos quando em um dia comum a campainha de seu apartamento tocou inesperadamente. Já havia semanas que não via um único ser-humano quando o silêncio do lugar foi interrompido. Ele odiava sair de casa. Ficava trancafiado em seu reduto, lendo, escrevendo ou escutando música. Seus pais, uma vez por mês, lhe traziam comida, assim, nem para se alimentar ele precisava sair. Tentava ser uma ilha, ou pelo menos criar uma para si. Apenas preso naquele minúsculo apartamento, com suas paredes descascadas e com seu cheiro estranho, é que se sentia livre, e era livre justamente por ter escolhido isso para sua vida. O mundo exterior, para ele, era coercivo, inibia suas ações e inibia a idéia de mundo que tinha para si, detestava todas as criações e regulamentos dos quais ele nunca participou e tinha, quando estava lá fora, que seguir. “Não há liberdade na sociedade”, sempre repetia para os seus pais quando estes vinham lhe visitar. Eles não conseguiam entender como alguém que não saía de casa podia falar em liberdade. Caim fechou o livro que lia e foi atender a porta. Olhou pelo o olho mágico e viu Abel.
“O que você quer?” falou do lado de dentro. “Abre essa merda, seu merda” retrucou o irmão do lado de fora. “O que você quer? Aconteceu...”. “Abre essa merda, senão eu vou arrombar”. Abel começou a socar e chutar a porta, Caim de costas jogando seu peso contra ela tentava evitar as tentativas do irmão. “O que você quer? Porra. Me deixe em paz”. A única resposta que ouviu foi as batidas na porta. Caim começou a ficar com medo da atitude do irmão e o que era preocupação se transformou em pavor, cada vez mais apoiava seu peso na porta, sabia que não podia deixá-lo entrar, via no outro o próprio inferno, mas não teve forças suficientes para suportar os trancos do brutamontes de academia do lado de fora da porta. Abel chutou, chutou pela última vez levando juntos ao chão, Caim e aquele pedaço de madeira que ele tentava defender.
A porta caiu para um lado, Caim para o outro. Ele levantou meio aréu. Viu seu irmão furioso vindo pra cima dele: um soco, uma dor, o sangue cuspido pela boca, o chão, o chão, os olhos pesados, uma dor, o chão. Quase desmaiado, Caim sentia toda dor de uma direita bem dada e certeira no meia de sua boca, que o fez cair de bruços no chão e entrar em um estado de semi-vigília. Seus olhos pesados, entre o aberto e o fechado, viam Abel andar pela casa apressado. Caim tentava se manter acordado. Abel revirava toda a casa, jogava as roupas para fora das gavetas, abria os livros e os balançavam, mas não achava o que queria. Caim lutava contra seus olhos pesados. Desmaiou.
Água. Acordou com um golpe de água na cara e com algumas bofetadas, sabe-se lá quanto tempo depois. “Anda, acorda seu bosta”. Era Abel que, não achando o que veio procurar, tentava lhe acordar para obter o que tanto buscava. “Anda, cadê o dinheiro? Cadê o seu dinheiro?” Caim começou a rir. Apesar de sua boca estar inchada, ria, ria mesmo com a dor. “Do que é que você está rindo?” gritou Abel enquanto levantava o irmão bela gola da camisa. Caim ria. “Do que é que você está rindo, porra?” Caim foi ao chão mais uma vez, mais uma vez um soco, desta vez no olho direito, mesmo assim continuava a rir. Foi entre risos que falou: “Você é mesmo um drogado de merda. O que foi? A mamãezinha não quis mais te dar dinheiro?”, ria.
Abel ficou furioso e aproveitou o irmão deitado no chão, rolando de rir para chutá-lo na barriga. “Sou um drogado de merda mesmo, mas e você, quem é? Um viado que não sai de casa, vive preso nesse pulgueiro. A vida não é isso não, meu irmão, é muito mais do que isso. Você tem que curtir o mundo lá fora, tem que aproveitar tudo que o dinheiro de nossos pais pode nos dar, tem que curtir a vida, tem que curtir a liberdade. Saia dessa prisão que você mesmo construiu, vamos sair juntos, ir num puteiro...”. Abel parou por um instante e agora era ele quem começava a rir. “Puteiro? Você é um virgem de merda. Já esteve com alguma mulher, alguma vez na vida? Claro que não. Já comeu uma boceta? Claro que não, seu virgem de merda, seu viado de merda” Abel ria, ria. “Saia desse apartamento, seja livre como eu”.
“Livre?” Caim falou sério enquanto levantava se apoiando no sofá. “Você, um nóia, quer me falar de liberdade? Já parou para se perguntar por que você está aqui? Você acha que é livre, mas o simples ato de vir aqui me procurar, procurar o meu dinheiro para se drogar ainda mais, já mostra sua sujeição. Você é dominado pela droga, eu não. Você é dominado pelo dinheiro e tudo o que ele pode comprar, eu não. Nossa mãe me dá dinheiro apenas para o básico: para o aluguel, para comprar comida e para comprar livros; gostaria também de não precisar disso, ao contrário de você. Aqui, não há o dinheiro que você veio tanto procurar, ele não é necessário na minha 'ilha particular', ou na minha prisão, como você mesmo disse. Esse apartamento não me tira a liberdade, eu escolhi isso pra mim. Todas as grades que eu escolho, escolho porque sou livre, essa 'prisão' não me prende, pelo contrário, me traz a liberdade, pois aqui sou livre, sou o mais livre que consigo ser. Aqui crio o mundo que concebo, aqui como com as mãos, durmo no chão, ando pelado quando me dá vontade. Liberdade é não precisar de nada. Quem é você para me falar de liberdade? A roupa que você veste, suas atitudes, seus pensamentos, tudo isso foi escolhido para você. Liberdade não é escolher entre o que te oferecem, é escolher o amarelo, quando te oferecem o azul e o vermelho, isso é liberdade. E, respondendo a sua primeira pergunta: 'Quem é você?', bem... quem sou eu? Se você quer mesmo saber, sou alguém que escolheu a liberdade ao invés da felicidade”.
Abel estava agora batendo palmas. “Estou emocionado, acho que vou até chorar. Pobre garoto infeliz”, falou com deboche. Ele respirou fundo, mudou a feição e falou sério: “Caim, estou perdendo a paciência, me dá a porra do dinheiro.” O irmão mais velho riu. “Já falei que ele não é necessário aqui nesse apartamento. Se você quiser deve ter alguns trocados na minha carteira, trocados que devem estar lá a mais de um mês, pode pegá-los...” pensou em algo engraçado e riu, “pode pegá-los, você é livre para isso, pegue e seja feliz”, ria. Caim se divertia com aquilo, mas sabia da situação em que o irmão se encontrava, era deprimente. No caso a droga aqui era cocaína, mas poderia ser qualquer outra: moda, religião, sexo, televisão, livros, chocolate; qualquer coisa que sobrepujasse aquilo que somos, a nossa liberdade de escolha e nos oferecesse uma falsa idéia de felicidade. Caim sentia pena.
Abel correu em busca da carteira do irmão, não sabia como tinha ignorado aquele objeto, ali, pousado em cima da cômoda da sala, mas se decepcionou com a quantia de dinheiro que havia lá dentro. “Seis reais, seis reais. Eu não compro nada com seis reais” Caim ria.“O cartão, o cartão do banco”, o irmão mais novo achou algo que novamente o trouxe esperanças. “Vamos ao banco, preciso de dinheiro, você vai sacar uma grana para mim. Vamos”. “Eu não sairei daqui”, falou Caim. “Você vai, estou mandando. Vai ir ao banco tirar essa merda de dinheiro para mim, por bem ou por mal”. “Já falei que não vou, não saio desse apartamento”. Abel furioso pegou o irmão pela mão e começou a arrastá-lo. Caim caiu no chão e continuou a ser arrastado. O irmão mais novo já estava quase atravessando a porta quando foi derrubado por uma rasteira, era provavelmente o primeiro ato de violência cometido pelo mais velho. Os dois rolavam no chão trocando socos. Abel conseguiu se levantar e voltou a puxá-lo pelo braço. Era incrível perceber a resistência de Caim, um tipo bem magro, contra aquele brutamontes de academia, seria impossível dizer de onde tirava forças para lutar contra o irmão e contra o mundo que se apresentava nos limites daquela porta arrombada. Sair daquele apartamento a força, era sair para a prisão. Lá fora seria escravo, agrilhoado e sem liberdade, isso, ele nunca permitiria. Lutava. Lutavam enquanto a noite caía e a sala escurecia.
“Você vai. Quer queira, quer não. Nunca vou deixar um nada, um merda como você me impedir de fazer o que quero”, disse Abel que continuava puxando o irmão. “Eu sou livre. Nunca vou deixar alguém me dizer o que fazer, eu sou livre”. Os dois irmãos trocavam socos e exerciam suas liberdades, livres e belicosos. Não havia ninguém para dizer-lhes que aquilo era errado, ninguém para separar aquela briga. Os dois irmãos estavam em estado de guerra.
De repente, um grito: “Eu sou livre!”; era Caim que gritava e corria contra o irmão. O mais velho havia se trombado com Abel e corria, empurrando todo peso do outro para trás. Ele sabia onde aquela corrida iria dar, mesmo assim não parou. Abel foi jogado contra a janela. A janela do 5ª andar estilhaçou-se e o corpo caiu no meio da avenida que passava em frente ao prédio. O trânsito imediatamente parou. Caim foi até a janela e olhou para irmão morto jogado ao chão.
Fechou os olhos, virou-se e foi colocar a porta no lugar. Foi ao banheiro, limpou o sangue que saia de sua boca e lavou o rosto. Voltou para a sala e sentou-se. Sentou-se em um silêncio escuro. Não quis descansar suas costas no encosto do sofá, não quis parecer a si mesmo muito relaxado. Também não quis ficar de pé, nem mesmo sentar-se em uma cadeira dura e gelada da cozinha. Se tinha de esperar que fosse com conforto. Por mais incrível que pudesse parecer, nada passava por sua mente. Algumas vezes lhe dava uma vontade quase incoercível de sorrir, mas ele, no final, conseguia dominar essas forças doentias, e ele sabia que eram doentias, e segurava o sorriso. Os minutos não passavam, ele não tinha um relógio por perto, mas sabia que não passavam. Eles estavam demorando, talvez nunca viessem, talvez devesse se entregar. Conforme a noite ia ocupando seu espaço a sala ficava mais escura e ele, cada vez mais, era consumido pelas trevas. O silêncio foi interrompido, era a campainha.
Independentemente de todos que venham dizer que o destino de Caim era matar Abel, como aqueles que, com medo que uma tragédia assim pudesse acontecer, já haviam tentado avisar os pais dos dois irmãos sobre os maus augúrios que acompanhavam esses nomes, eu sempre afirmarei que a luta que se deu e a morte ocorrida não foi caso de predestinação, mas sim, uma guerra de liberdades pela própria liberdade.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Conto X - Ciranda Moderna


Era Minas. Era interior de Minas. Era praça de árvores antigas, de folhas que balançavam ao vento maroto e sem pressa. Era praça de espíritos jovens, brincando de roda em volta da estátua do padroeiro da cidade. Era sol das quatro da tarde que querendo competir com meio-dia, alumiava todo o tempo, tão forte que era necessário apertar os olhos, deixando a luz entrar apenas em pequenas gotas, como se fosse um colírio luminoso que nos fizesse perceber as cenas e as personagens ali presentes. Era um jovem sentado de pernas cruzadas e pensativo sobre um banco de pedra, bem no centro daquela praça. Um jovem que já tinha vivido um quarto de século, mas que ali era tão novo quanto às crianças a brincar de roda ou tão velho quanto às senhoras a fofocar nas janelas.
Ali, o tempo corria diferente, era o tempo da brincadeira, era o tempo do assunto para contar, a noite dizia a hora de dormir e o sol a de acordar. Muito diferente dos horários marcados da cidade grande, moradia daquele jovem, onde cinco minutos de atraso faziam ruir toda uma estrutura caótica e que não fazia o menor sentido para aquela gente do interior. Nunca entenderiam as buzinas e o mau humor, nem as pessoas apressadas, olhando em seus relógios de pulso intermitentemente, muito menos a pressa irracional do trânsito, com sua velocidade alta e as ultrapassagens perigosas, que só serviam para chegar primeiro ao mesmo congestionamento onde todos, inclusive aqueles carros que foram ultrapassados com tanta pressa, ficariam presos. Aquela gente humilde, não conhecia nada disso, e tão pouco conseguiria entender toda aquela loucura, só conhecia o horário marcado das missas, o trânsito quase inexistente das carroças puxadas pelos cavalos, as frutas colhidas no pé e o bom dia a qualquer pessoa.
O ar era diferente, não tinha o peso dos escapamentos dos carros, nem das chaminés das fábricas, cheirava a flores, a frutas, a terra, a pureza. Era o ar adâmico dos primeiros dias fora do paraíso. O jovem, de olhos fechados como se estivesse meditando, sentia a leveza das coisas daquele local onde o tempo parecia correr não em minutos, mas em ações, e permitia a si mesmo viajar por aquelas sensações que pareciam submersas em um grande oceano quase atemporal: o barulho do casco dos cavalos batendo no chão de pedra, o vento balançando o seu cabelo, a voz suave das crianças a cantar cirandas. Tentava esquecer a cidade grande e toda sua pressa exagerada. O ar não tinha, principalmente, o peso das responsabilidades e dos problemas de onde vinha. Na verdade aquela brisa que balançava o seu cabelo parecia levar para longe todas as preocupações e tristezas que o trouxeram até ali, àquela praça.
Já havia passado mais de meia-hora que estava ali parado na mesma posição, mas esse correr supérfluo do tempo não importava naquele momento, muito menos naquele local. Resolveu, finalmente, abrir os olhos quando escutou uma cantiga conhecida, dessas que até as crianças da cidade, com seus jogos eletrônicos e que vivem presas dentro das grades de um condomínio, conhecem: Ciranda, Cirandinha. Respirou fundo aquele ar adâmico e lembrou-se de sua infância e de toda pureza imanente a ela. Lembrou-se dos encontros de família, das brincadeiras e da banana amassada com aveia de sua bisavó, das histórias sobre a guerra e das mágicas de seu avô, do bolo de chocolate dos seus aniversários. Sentiu saudades de uma época sem preocupações e cheia de inocência. Ao lembrar-se disso tudo, chorou. Chorou copiosamente.
Logo que começou a chorar, um senhor, cuja experiência estava riscada nas rugas de sua face e na volumosa barba branca que ostentava, se aproximou e lhe perguntou se estava bem. Aquele jovem sentiu raiva daquela situação, que para ele era vergonhosa. Ele odiava a prestatividade daquela gente do interior. Tinha certeza que se estivesse na cidade isso nunca aconteceria. Ele, muito provavelmente, passaria invisível através de toda aquela gente apressada, individualista e preocupada apenas com os ponteiros do seu relógio. Mesmo que alguém percebesse seu choro, nunca pararia para perguntar, nunca. Esse ato caridoso e humano poderia levar mais de cinco minutos, tempo que se desperdiçado faria ruir a estrutura caótica em que se encontrava aquela sociedade, era melhor não parar, era melhor fingir que não via. Cada pessoa já tinha problemas demais para resolver, a conta atrasada, o chefe estressado, o casamento que não ia bem. Era melhor ignorar, não querer enxergar e, principalmente, não perguntar o que estava acontecendo, em hipótese alguma. Porém, aquele senhor humilde, que não se preocupava com o tempo e ainda conservava a educação e o desejo de ajudar o próximo, percebeu o choro do jovem e se aproximou: “Por que chora meu rapaz?”, perguntou o velho. Ele, secando as lágrimas, pois não estava acostumado a mostrar sua fragilidade devido a força que precisava ter na cidade grande para enfrentar os problemas e lutar com as outras pessoas, quase que literalmente, por melhores empregos, melhores salários, melhores vagas no estacionamento, respondeu que era bobagem, e que só havia se emocionado com as crianças que brincavam na praça, tinha lembrado de sua infância e das despreocupações daquela época. “Que bom. Chorar faz bem. Mas se você chora por uma época sem responsabilidades, o que te preocupa hoje?” continuando, o senhor, aquele assunto. “Não sei, a vida é estranha. Em menos de um mês terminei...” O jovem, meio reticente de se abrir assim com um estranho, hesitou por alguns segundos, deixando a frase suspensa no ar, mas resolveu se entregar àquela conversa e à ajuda do velho que parecia ser sincera. “... Terminei meu noivado e perdi meu emprego, tudo o que era garantido e certo para mim ruiu. Ao invés da promoção que tanto esperava na empresa, ganhei uma demissão. Agora, estou eu cheio de dúvidas, dívidas e sem aquela que tanto amava. Sei lá, a vida é realmente estranha, é uma eterna mudança, apenas instabilidade. E, para falar a verdade, não sei muito bem como reagir a isso tudo.”.
“Você sabe, apenas esqueceu como fazê-lo”, respondeu o velho. “Como assim?”, indagou o jovem. “Com certeza você já dançou ‘Ciranda, Cirandinha’?” “Sim, dancei”. “Então, sabe como deve enfrentar as mudanças da vida... Preste atenção no que as crianças estão cantando”. “Elas cantam que todos vamos ‘cirandar’, não apenas eu, não apenas você, não apenas as ‘pessoinhas’ que estão a girar na roda, mas sim todos, não há como escapar disso. Essa ciranda representa a vida, que não é mais do que meia-volta e volta e meia, ou seja, é uma roda de altos e baixos, assim como é a nossa própria existência. Essa roda não para nunca, está sempre em movimento”. “O anel, que representa todas as coisas de valor que possuímos nessa vida, era de vidro e se quebrou, assim como o emprego perdido e tudo de material que ele te proporcionava. O amor era pouco e se acabou, assim como o seu noivado”. “Não sei por que você acha que a vida é estranha. Desde criança já te disseram o que você precisava saber sobre ela, apenas não tinha percebido isto.”
O jovem ficou sem fala, nunca tinha percebido a profundidade dessa cantiga folclórica, dessa brincadeira de criança, dessa sabedoria anônima que parecia ter sido criada junto com o homem na terra. “Como era possível algo tão simples sintetizar todo um pensamento sobre a vida? Como era possível que essa simplicidade pudesse passar despercebida aos nossos olhos?” O velho observava o momento solitário e reflexivo do mais moço, mesmo sem dizer nada, ele sabia o que estava passando na mente daquele jovem. Soube respeitar esse tempo, não tinha pressa, cinco minutos, dez minutos, uma hora, não fariam a menor diferença naquela estrutura.
Depois de um tempo, foi a juventude ávida pelo ensinamento quem quebrou o silêncio. “Genial, nunca havia pensado nisso...” Mais um momento de silêncio que o velho novamente soube respeitar, ele via que o jovem tentava organizar as frases, as palavras, as silabas para novamente tentar o diálogo. “Impressionante como uma cantiga da sabedoria popular pode nos ensinar tanto. Na cidade temos a mania de ignorar e até possuir certo preconceito contra tudo o que seja ‘folclórico’, não sei, é como se fosse um choque entre tradição e modernidade, é como se fosse necessário negar a primeira para se adaptar a última. Não sei. É incrível como deixamos passar essas pérolas, que nos são dadas desde cedo, mas que pouco aproveitamos. Não consigo entender como a profundidade dessa letra nos passa batido?” “Hoje, meu jovem, eu vivo nesta pequena e pacata cidade do interior de Minas Gerais, porém, durante toda a minha vida morei na conturbada vida metropolitana, e posso te afirmar com absoluta certeza, há muitas coisas que só fui entender aqui, longe dos livros e de toda a tecnologia, apenas observando as pessoas simples, as brincadeiras, o tempo correndo por si próprio. Toda a planificação da vida e a coisificação das pessoas na cidade grande faz com que olhemos o mundo com um ar indiferente, com certo deboche, e essa atitude ‘blasé’ faz com que ignoremos algumas pérolas, algumas verdades escondidas nas ‘entrelinhas’ e que nos são dadas gratuitamente desde crianças. Não percebemos isso pois estamos fechados em nossos ‘mundinhos’ particulares”.
“É impressionante,” falou o jovem perplexo. “Sim, porém, há ainda muito que se aprender com essa cantiga”, disse o velho querendo continuar a lição. “Você reclamou que não sabia como enfrentar as mudanças da vida, e eu não disse, gratuitamente, que você apenas havia esquecido como enfrentá-las, muito mais do que só mostrar como a vida é: uma roda com altos e baixos; observar as crianças girando e cantando nos ensina como devemos agir nesse mundo instável, cheio de meias voltas e voltas e meia. Para aquelas ‘pessoinhas’, a roda, que já vimos representa a vida, não passa de uma diversão. Elas estão conscientes das ‘regras’ da brincadeira, sabem que vão girar e girar, e o mesmo se dá para os adultos. Quando sabemos o que iremos enfrentar: mudanças, dificuldades, alegrias, perdas, ganhos; todas as coisas são vistas de forma diferente, conhecemos as efemeridades que nos aguardam e por mais que a tristeza ou a felicidade nos acompanhe, sabemos que é por um tempo finito. A roda vai girar e se você está por baixo, vai para cima, e se está por cima, vai para baixo, esta é a vida. O máximo que podemos fazer é aceitar isso, e nos lembrar como ‘cirandar’ como aquelas crianças, indiferentes na roda”.
“Mas é difícil” retrucou o jovem. “É uma grande desilusão pensar que não temos controle sobre nossas vidas, que devemos apenas, como você mesmo disse, aceitar essas mudanças, que elas irão acontecer, sem dúvida. É complicado.” O velho riu, sabia o que se passava com o pobre garoto, se lembrou do momento em que percebeu todas essas coisas, ficara tão atônito quanto, infelizmente, não teve a mesma sorte de perceber essas coisas na juventude, “uma pena”, pensava ele, mas ficou feliz em poder compartilhar a descoberta com esse jovem sentado no banco de pedra de uma praça do interior de Minas. Respirou fundo e continuou o assunto: “é meu filho, passamos a vida achando que temos controle sobre tudo, estudamos para controlar o conhecimento, desejamos a riqueza para controlar o conforto, buscamos o outro para controlarmos o amor e os prazeres sexuais, mas nada disso é eterno. O homem moderno, com sua pseudo-onipotência, acha que pode vencer a Fortuna, que pode vencer a beleza, que pode vencer o conhecimento, que pode vencer, até mesmo, a morte. Ele traça planos, se apóia no progresso, na ciência, na razão, nos diversos ‘ismos’, para tentar parar a roda da vida, para atingir o ‘felizes para sempre’, mas não adianta, a vida vai mudar, a roda vai girar. É até engraçado pensar em toda essa propaganda do ‘eterno’, em uma sociedade que se baseia na destruição do antigo para a construção do novo, é querer sofrer. O dia em que as pessoas se voltarem para o que é natural e começarem a perceber a pureza e a sabedoria que há nas coisas simples, como essas crianças a brincar de roda, entenderam melhor a vida, a nossa sociedade e a si próprios. É por isso que lhe disse que devemos observar essa brincadeira e a indiferença das crianças em relação a roda. Assim devemos guiar as nossas vidas, aceitando a premissa de que vamos ‘cirandar’”.
“Mas...” hesitou o jovem como se ainda não tivesse tanta certeza do quê perguntar, ou como se duvidasse que a pergunta realmente devesse ser feita, “... se a vida é mudança e se cabe a nós aceitar essa efemeridade, qual é o sentido da vida? Digo... não teologicamente, ou seja, não quero descobrir o porquê de estarmos neste mundo, mas sim o que fazer da vida. Como você disse, a nossa sociedade se baseia na destruição do velho para a criação do novo, então, minha pergunta seria: o que me impulsionaria a criar, a tentar construir algo novo, sabendo que será destruído, que não durará para sempre? Simplificando ainda mais: se vai acabar, por que começar algo”? “Bem, algumas coisas simplesmente subvertem essa lógica”, respondeu o velho, “mas nunca saberemos se o que estamos construindo durará e, além do mais, acredito que o próprio girar da vida nos faz querer criar algo, não há como ficar parado. Sem dúvida, há muitas pessoas que passam a existência a girar, girar, girar e não constroem nada de efetivo, não são corajosas o suficiente para entrar no centro da roda”. “Como assim?” perguntou o moço. “Vamos prestar atenção na terceira estrofe da ciranda” respondeu o senhor. “Ouça: ‘Por isso dona Rosa, entre dentro desta roda, diga um verso bem bonito, diga adeus e vá se embora’. Esta aí a chave para entendermos o ‘sentido’ que devemos dar a nossa existência. A vida nos convida a entrar dentro desta roda, a enfrentá-la e é preciso muita coragem para sair de sua superficialidade, entrar em seu centro e dizer ‘um verso bem bonito’ para depois ir-se embora. A cantiga não nos diz pouca coisa, devemos entrar na roda para dizer um verso ‘bem bonito’, não é qualquer bobagem, é um verso ‘bem bonito’, é algo importante, para logo depois dizer adeus. Embora a maioria das pessoas nunca tenha coragem de enfrentar este desafio, as que têm, devem fazê-lo bem feito. Só assim realmente conseguirão construir algo que talvez permaneça. O ‘sentido da vida’ está na mensagem que iremos passar se decidirmos entrar dentro desta roda”.
O rapaz levantou. O senhor ficou olhando ainda sentando. Aquele jovem, de pé naquela praça, respirando o ar adâmico, desta vez, de quem chega ao paraíso, como se o próprio ar tivesse mudado com aquela conversa, recomeçou a chorar. O velho sabia que era um choro diferente, não era o choro das mágoas e dos problemas e, desta vez, resolveu não se intrometer. Alguns minutos se passaram. Dois, cinco, dez, vinte, não importam, naquela praça o tempo não passava em minutos, mas sim em ações, e o único movimento feito foi o ato de se levantar. As lágrimas corriam sobre o seu rosto e paravam em sua boca que sorria alegre, um sorriso tão leve quanto o das crianças a girar na roda. A expressão triste e preocupada havia sumido como se aquelas lágrimas a houvessem levado embora como em uma enxurrada. O jovem secou o rosto com as mãos e começou a correr, corria como se tivesse dado corda no próprio correr do tempo. O velho, esboçando um sorriso, ficou admirado com aquela ação, ao vê-lo entendeu o que se passava. O barulho natural dos cascos dos cavalos batendo no chão de pedra foi abafado pelo som de um tênis de marca pisando forte. O jovem corria intensamente em direção àquelas crianças, àquela roda. O velho sabia o que ele iria fazer, sabia o que passava na cabeça daquele rapaz e começou a chorar também. O ar adâmico enchia os pulmões e dava energia para aquela corrida, que representava muito mais do que os vinte metros finais para a vitória em uma maratona. O tempo parecia ter parado mesmo com as várias ações que aconteciam, como se ele mesmo que sempre corre inexoravelmente, indiferente a todos, se esquecesse de correr para observar o que o jovem estava prestes a fazer. As crianças assustadas pararam de girar assim como o tempo. Aquelas que estavam no caminho do jovem soltaram suas mãos para não serem atropeladas, talvez desconfiassem que, embora o tempo e a roda tivessem parado, aquele rapaz não pararia nunca, pois tinha algo a cumprir. O jovem passou pelas crianças e saltou, saltou em direção à estátua do padroeiro da cidade, centro daquela roda, e a agarrou forte, assim como agarramos tudo aquilo que sonhamos ter para sempre. Dependurado naquela estátua, de olhos fechados e apoiando o pé na base de concreto, deixou-se balançar pelo ar adâmico. Um, dois, dez, vinte minutos podem ter se passado, não importa, o próprio tempo havia parado para observar aquele jovem. Ele abriu os olhos, respirou fundo e gritou. O grito, aos ouvidos de todas as pessoas daquela praça: as velhas que fofocavam, as crianças, a professorinha que organizara aquela roda, o condutor da carroça; pareceu um ato de loucura, de pura insanidade que quebrava a paz da cidade de gente humilde e ingênua, mas uma pessoa o havia entendido, uma pessoa sentada no banco de pedra daquela praça, que já havia vivido quase três quartos de século, cuja experiência estava riscada nas rugas de sua face e na volumosa barba branca que ostentava e que chorava, chorava copiosamente, como que se aprovasse a atitude daquele rapaz. O velho havia entendido perfeitamente o que se passara, havia entendido perfeitamente o que aquele jovem tinha feito. Ele havia tomado coragem e entrado no centro da roda. O grito não era qualquer bobagem, não era uma interjeição qualquer, era uma palavra gritada em alto em bom som e que representava tudo de especial para aquele jovem. Poderia ter durado para sempre não fosse a finitude do ar adâmico que preenchia os seus pulmões. Era o ‘seu verso bem bonito’.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Pequenas Estórias - Conselho a Hermes


Voa Hermes, voa. Já que tens asas, voa. Porém, pertinente seria lembrar que elas ainda não se recuperam por inteiro do último tombo. Assim como as asas quebradas de um anjo não servem a nada, a um mensageiro tão pouca utilidade teria, mas se queres voar, voe.

Seu objetivo é o sol, sempre foi, mas lembre-se dos fracassos anteriores, lembre-se que ele zombeteiro com seu calor, derrete a cera que cola suas asas e que com seu brilho o deixa hipnotizado.

Ó Hermes, o sol, por quê? O que tem de tão especial o sol? Por que não a lua, igualmente bela, musa das musas dos poetas que a cantam com anagogia?

Mula vê se aprende, voa baixa, leva suas mensagens e contenta-te a viver. Não somos nós que buscamos o sol e sim ele que de repente aparece, tocando nossa face com seus suaves dedos de fogo. Quando sentires esse calor saberás que foi ele quem veio até você.

domingo, 31 de agosto de 2008

Conto IX - Gomes e o Pássaro


Urrou, parecia que tinha devorado um boi inteiro. Não comia tão bem assim desde o Natal passado, passado na casa de Sinhô Fernandes, quando o dono da fazenda chamara todos os seus empregados para participarem da ceia e comemorarem a boa colheita. Sua respiração era ofegante, nunca vira tanta fartura, sorria e arregalava-se na cadeira batendo no bucho cheio de orgulho.
Procurou suas crianças no meio da festança, viu que estavam as três e mais algumas outras a infernizar o pároco, que insistentemente tentava explicar a elas algumas histórias bíblicas. Riu da situação, se nem mesmo ele entendia a linguagem difícil dos clérigos e dos homens estudados da cidades, o que seria das pobres crianças.
Rivaldo, o filho mais novo, veio correndo até ele com cara de novidade: “Pai, o pároco nos disse que as pessoas boas quando morrem vão para o céu, é verdade?” Normalmente Gomes passaria as questões religiosas para serem respondidas por sua esposa, afinal, era ela quem freqüentava a missa todos os domingos sem pestanejar, mas sentiu-se útil, sentiu-se importante e poderia exercer o seu papel de pai explicando ao pequeno as coisas que sabia, essa era uma delas. “Sim moleque, quando a morte chegar se formos bons vamos para o céu.” Falou ele um pouco irritado e até com um ar prepotente de quem zombava da ignorância do próprio filho.
O filho irradiou-se e não conteve uma segunda pergunta: “Pai, todos os pássaros, então, são pessoas boas? Até mesmo os urubus?” Gomes sentiu o peso da dúvida, lamentava-se por não ter mandado o moleque ir tratar com a mãe já na primeira pergunta. Sabia que as pessoas boas vão para o céu, mas será que virariam pássaros? Nunca tinha ouvido falar disso, mas o filho plantou-lhe a dúvida. Não era grande freqüentador das missas e das poucas que ia, quase sempre sentava no fundo e acabava cochilando. Irritado, levantou-se da mesa e bradou: “Se arreda daqui moleque.” As três crianças, Rivaldo e as outras duas que observavam o colóquio, saíram apressadamente com medo do pai.
Gomes resolveu caminhar para livrar-se do mal causado pela abundância de comida. Andou, andou e foi se assentar na beira do rio. Em paz, olhando o sol refletido nas águas claras e quase raras do rio que não via chuva a meses, voltou-se a pergunta do filho: “Será que os pássaros eram mesmo pessoas boas que tinham morrido?” Não sabia.
Arregalou-se e adormeceu embaixo de uma árvore seca e já quase sem folha. Sonhou com os filhos perguntando coisas que nunca tinha ouvido falar, sonhou com pessoas boas voando com asas dadas por Deus, como anjos. Viu sua mulher, seus três filhos, o pároco, Sinhô Fernandes e muitas outras pessoas da redondeza, todas voavam com graça. Sonhou com a comilança e que era dono de grande fazenda, poderia comer aquela quantidade de comida sempre que quisesse. Sonhou, sonhou.
Já quase no ocaso, acordou. Viu que um pássaro velava o seu sono. Sentiu-se cúmplice da ave, os dois se entreolharam por alguns instante e relembrou-se da pergunta do filho. Lembrou-se de sua mãe, que como o pássaro estava sempre presente em sua cama ao dormir e antes de acordar. Pensou que o filho pudesse estar certo. Girou de lado e ajeitou-se de forma respeitosa, de joelhos em frente ao pássaro, com lágrima aos olhos falou com voz entrecortada: “Se for a senhora, mãe, me dê a sua benção.” A ave voou e posou em sua mão, Gomes a levantou a altura dos olhos e os dois se olharam permanecendo assim em um momento de prece, não sabia nenhuma das rezas que eram ensinadas na Igreja, mesmo assim, com as mais bonitas e poucas palavras que conhecia agradeceu a Deus por aquele momento. O pássaro voou para o horizonte.
Levantou-se e respirou fundo, achara a resposta do filho. Não importava mais o que o pároco ou os homens estudados da cidade diriam, para Gomes todos as pessoas boas virariam pássaros e voariam livres pelo céu azul.

domingo, 24 de agosto de 2008

Conto VIII - V'ela


Ela tateou o quarto no escuro. Acordou, mas parecia ainda estar em um sonho. Escuridão total, Treva. Procurou o abajur, ele não acendeu. Olhou para o rádio relógio, desligado. Parecia que tinha acabado a luz. Suas mãos percorriam o criado-mudo, conhecia o que lhe esperava naquele tatear: o abajur, o rádio-relógio, o porta-retrato, sem foto, detalhe que não era percebido naquela escuridão. De repente, sentiu um objeto diferente, não deveria estar ali. Bateu sem querer em um copo que com a mão que tateava foi jogado ao chão. Barulho. Cacos espalhados pelo chão do quarto escuro. Lembrou-se do celular, sabia que este deveria estar no criado-mudo, depois de tatear as cegas por alguns segundos, achou o desejado objeto, precisava de alguma luz, tentou ligá-lo, nada. Na treva, onde há igualdade seja de olhos fechados ou abertos, ficou parada pensando.
Fechou os olhos tentando dormir novamente, nada. Abriu os olhos tentando enxergar algo, negro. Parece que até a noite estava contra ela, a noite escura e sem lua, sem estrelas, nada apenas a escuridão. Parecia que os anjos haviam tocado a quarta trompeta do apocalipse. A noite estava mais escura do que costumava ser. Precisava de alguma luz.
Resolveu levantar-se. Dor, um grito mudo, sangue escorrendo pelo seus pés, esqueceu-se dos cacos de vidros espalhados pelo chão, lembrou-se quando um, sem misericórdia, rasgou seu pé direito. Colocou a mão no pé, sabia que estava sangrando pela úmida viscosidade do sangue. O pé esquerdo, que se salvara do acidente, procurou mais cacos e empurrou-os calmamente para debaixo da cama.
Sabia que tinha que levantar, agora era necessidade. Deveria fazer um curativo em seu pé. Levantou-se. Tateou apoiada no armário até a porta. Lembrou-se do interruptor, com um fio de esperança tentou ligar a luz, nada. Só o barulho seco da mudança de posição. Ela fez esse movimento várias vezes, ligou e desligou o interruptor infinitas vezes, por um lado por causa da esperança da claridade, e por outro para maldizer o objeto naquele momento sem utilidade.
Tateou a porta, achou a maçaneta, abriu. Surpresa, ouviu vozes ao fundo, achou que eram ladrões. Já imaginou que tinham cortado a energia para assaltar a casa. Desesperou-se. Pensou em voltar para a cama e se esconder, mas precisava fazer um curativo em seu pé. Se ela não via ninguém, os ladrões também não veriam. Respirou fundo e continuou no tatear, sabia que bem em frente a sua porta estaria a parede do estreito corredor, andou até achá-la, nada. Deu mais de dez passos e nada de trombar com a parede que deveria estar a no máximo dois. Não poderia ser, será que não estava em sua casa? Tinha certeza que estava. As vozes ficavam cada vez mais altas. Onde estaria? Quem seriam estas pessoas?
Música, ouviu uma canção melodiosa e sofrida. Ouvia o acompanhar dos instrumentos. Timbres, acordes, melodias e pratos, aquilo tudo estava tão estranho que nem se deu conta que havia energia elétrica para aquela música. Continuou a andar, mais dez passos e a parede não chegava. As vozes ficavam cada vez mais fortes, as pessoas riam, falavam alto, estavam felizes e ela não enxergava nada.
“Vira, vira, vira”. “Vira, vira, Vira, virou”. Algumas das vozes gritavam isso, alguém deveria estar bebendo, quem? Já não tentava explicar o que lhe estava acontecendo, com certeza não estava em casa. De repente viu uma luz. Fogo, luz de velas. Andou, mesmo mancando com o pé machucado e que deixava marcas de sangue pelo chão, rápido até aquele fogo. Sentia que neste caminho ia esbarrando em outras pessoas, as vozes, mas não queria saber, não queria explicar, precisa achar aquela luz. As vozes estavam felizes, tranquilas e ébrias. Estava odiando tudo aquilo, odiava se sentir perdida, odiava se sentir sozinha.
Quanto mais perto chegava da luz, mais perto se perguntava se queria ver mesmo. As vezes cegar-se é melhor do que abrir os olhos. Decidiu enfrentar a luz. Um homem segurava uma vela, ela o conhecia, ele o ajudaria. Chegou para lhe pedir socorro, mas não aguentou olhar nos seus olhos, assoprou a vela para que ela apagasse. Preferia a treva do que olhar novamente para aquele olhar. Não aguentou o que viu. Outra luz se acendeu. Novos olhos, os conhecia também, outro homem com lágrimas nos olhos, outro assopro. Não conseguia encará-los.
De repente a treva se iluminou, a luz saia dos diversos olhares que apontavam para a nossa personagem. Não conseguia manter a cabeça erguida, parecia que aqueles olhos lhe cobravam alguma coisa, talvez confiança, talvez gostariam de ouvir súplicas e arrependimento, talvez apenas lágrimas verdadeiras de quem errou. Ela não daria isso aqueles olhos, nunca. Ao invés disso, xingou e esbravejou, “seus filhos da puta, deixem-me viver a minha vida”. Não importava o quanto xingava, não conseguia encará-los. Vítima, se sentia vítima daqueles olhos acusadores.
Por um átimo fez-se luz. Viu as pessoas em volta, felizes, sem culpa, sem peso na consciência, nem um pouco preocupadas com a falta de luz, algumas ainda viravam doses de tequila. O pouco que viu antes de voltar as trevas era diferente do que sentia na escuridão. Com as luzes acesas os olhos estavam despreocupados, conversando entre si, alguns se olhando hipnotizados desejando um beijo, alguns com um ébrio brilho, alguns sérios de atenção, alguns lagrimejando de tanto rir da última piada contada, na treva, novamente os olhos apontavam para ela, inquisidores. Não sabia o que estava acontecendo, se aquilo era um sonho, desejava acordar, tinha medo de não ser, e se fosse sua vida... o que faria? Xingou mais e mais aqueles olhares, tinham pena, choravam por ela. Ela não conseguia encará-los, fechou os olhos, apertando-os fortemente, como em uma prece, pediu para eles irem embora.
Ao fazer o pedido as vozes se calaram. Um alívio. Ainda de olhos fechados desejava que aqueles olhares inquisidores também tivessem partido, estava com medo de enxergar, “por favor”, pediu. Abriu os olhos, ainda estava escuro, mas não via nada, apenas trevas, todos tinham ido embora. Era insano tentar entender toda aquela situação. Fechou os olhos e suspirou cansada, abertos ou fechados, tudo era escuridão, não fazia diferença naquele momento.
Ao tentar enxergar alguma luz novamente, para sua sorte, viu um olhar acolhedor, que lhe entendia, que lhe compreendia, “ufa, alguem para me ajudar”, pensou ela. Andou em direção àqueles olhos, parecia não chegar nunca, parecia hipnotizá-la. Mais de duzentos passos foram dados até estar próxima daquele olhar, tateou no escuro e percebeu que era uma mulher, segurava uma vela na mão esquerda e um isqueiro na direita. Sentiu que a outra lhe dava aqueles objetos, como se a decisão de acender a vela não dependesse mais de si, mas sim, daquela que tanto procurava a luz. Recebeu com agrado e, por mais que sentisse medo da luz, acendeu o pavio. Por um instante sua vida passou diante dos seus olhos que piscavam freneticamente, a última imagem que viu foi o rosto da mulher que lhe entregou a vela. A outra era si própria, via a se mesmo, e como alguém que mira dentro dos olhos da Medusa, tornou-se pedra, ali, parada em pé, segurando a vela com a mão esquerda e o isqueiro com a direita, pedra.
Não morreu. Apesar de não poder se mexer e só enxergar aquelas mesmas trevas de antes, ainda estava consciente. Ouviu quando a mulher foi embora, seu salto alto batia na madeira do piso. Entendeu que a treva era ela mesma, os olhos que via, diferentes daqueles vistos com a luz acesa, eram os olhos que sua consciência exigia. Descobriu onde estava, não estava no seu quarto, na sua casa, nem em outro lugar qualquer conhecido, estava dentro de si mesma, sem limites, sem espaço e sem tempo, era apenas o verbo no infinitivo: Ser.
Poucas pessoas estiveram onde ela estava, poucas pessoas olharam o que ela olhou, poucos olharam para si próprio sem o reflexo de um espelho, e por isso ela virou pedra. Para viver, somos convidados a olharmos, todos os dias, para nós mesmos refletidos, assim a vida se faz, assim Perseu venceu a Medusa e continuou a viver. Viveu mas não conheceu a si mesmo, o monstro era ele, mas ele não viu, só via, no reflexo de seu escudo, uma mulher com fios de cabelo que eram serpentes. Matou a si próprio e a cada dia que nos olhamos refletidos, matamos a chance de nos conhecermos. A situação fez com que ela se encarasse, sem espelhos. A decisão de acender a vela foi dela, só dela. Só quando estamos desesperados temos coragem de acendê-la.
Um vazio, uma dor. Sua situação era desesperadora, o mito se fez verdade. Pedra e perda. Desconserto, desengano e desespero. Sem movimento, sem alento, sem amigos, sem nada. Estava sozinha, estava em pedra, estava em si mesma. Gostaria de saber se poderia conhecer a si mesma e não virar pedra, gostaria de saber se poderia ouvir o canto das sereias e não se jogar ao mar como fez Ulisses. Gostaria de sair daquela situação, mas com a sabedoria de quem conhece a si próprio. Estava desesperada, não havia tempo, não havia história, estava na eternidade e lá poderia ficar, havia apenas o ser. No eterno, só a consciência é sistema de medida e quando começou a repensar sua vida e arrepender-se de algumas coisas ouviu uma voz que disse: “só as lágrimas verdadeiras desmancham a pedra”. Chorou, mas não deixou de ser estátua, chorou por saber que demoraria ainda muito tempo para se arrepender de verdade, para passar por cima de seu ego, que era aquela couraça de pedra que a aprisionava, chorou por saber que ainda permaneceria muito tempo presa na eternidade e cega com aquela treva. Sabia que demoraria ainda para que as primeiras lágrimas verdadeiras caíssem, talvez isso nunca acontecesse. Chorava copiosamente pois tinha medo de sua situação, não porque se arrependesse dos seus pecados. Chorava por ela, não pelos outros, era pedra.

sábado, 16 de agosto de 2008

Conto VII - Do outro lado da rua

Abriu os olhos aos poucos, o som do despertador, nada animador para um sábado de manhã, era terrível. Virou para o lado, o objeto continuava tocando. Seu colega de quarto tomou coragem, levantou, desligou o alarme, chamou: “Raul, você vai se atrasar para o trabalho”; e voltou a dormir, ele merecia. Os dois tinham ficado até de madrugada festejando com mais alguns amigos e amigas a promoção de Raul, este havia subido de cargo no emprego e finalmente teria dinheiro de sobra para comprar um carro, idéia que já vinha perseguindo há anos.
Custou a levantar. A coragem só veio quando lembrou de sua promoção, tinha que levantar, tinha que se mostrar digno daquela confiança e saltou da cama, pegou sua toalha, suas roupas e foi ao banheiro. Tomou banho, escovou os dentes, fez a barba, estava impecável. Colocou sua roupa social, tão social quanto o papel que pretendia exercer: um futuro executivo de sucesso. A promoção era apenas a alvorada de sua vida. O sol começava a nascer de verdade para Raul, o progresso dentro da empresa era inevitável, ele atingira aquilo que todos chamavam de Felicidade. Teria seu salário dobrado, poderia comprar o seu tão sonhado carro, poderia morar sozinho, poderia até, se quisesse, casar com Joana, mas ainda não era hora.
Saiu de casa pisando firme, decidido em mostrar a todos que o “novo chefe” estava passando. Desceu o elevador, passou pelo saguão vazio e quase silencioso, não fossem o som de seus sapatos, cumprimentou o porteiro e saiu, ainda pensando em sua promoção. “Posso comprar o meu carro, não acredito, vou poder morar sozinho, comprar um celular novo, roupas novas...”. Continuou a prever o futuro.
Atravessou a rua e andou mais cinco minutos para chegar no mesmo ponto de ônibus de todo dia. “Essa vida está acabando”, pensou ele. Encontrou as mesmas pessoas de todos os sábados, o italiano que vai comprar jornal na banca, a madame passeando com seu cachorro, alguns adolescentes com os livros dos cursos de inglês e a garota do telemarketing sempre atrasada para pegar o ônibus.
Seriam as mesmas personagens de todos os sábados de manhã não fosse um grupo de mendigos na praça do outro lado da rua. Raul olhou com indignação aquele grupo de vagabundos. Ele estava indo trabalhar, ele era digno, ele tinha sido promovido, ele tinha uma Roupa Social diferente da deles. Sujos, rasgados, fedorentos; tão animais quanto o cão que os acompanhava na balburdia. Aquilo incomodava Raul e as pessoas que passavam por aquela rua.
Os “vagabundos” estavam bêbados, “pra variar”, como pensou Raul. Havia três homens, uma mulher e um cachorro, todos se assemelhavam, todos eram movidos pelos instinto. O quadrúpede, as vezes, parecia ser mais racional do que os bípedes. Um dos homens dançava com a mulher, enquanto os outros dois cantavam um forró e batiam palmas, marcando o ritmo.
“Irracionais, vagabundos. Deveriam estar trabalhando e não bebendo e zoneando por aí”. Estavam sujos e maltrapilhos, mas aquela felicidade era tão verdadeira... incomodava Raul. Não conseguia entender como aqueles seres podiam estar tão felizes. Não tinham dinheiro algum, o que tinham foi gasto em uma garrafa de 51 que bebiam com exagero. Não tinham casa, não tinham carro, não tinham emprego, não tinham celular, não tinham promoção. Não tinham nada do que trazia felicidade para Raul. Nada?
“Eles não têm nada para oferecer, por que o cachorro ainda está com eles? Por quê?” Raul não entendia o prazer de estar ali com eles, desvalidos e felizes. Não entendia a felicidade deles. Era uma felicidade tão verdadeira, e, apesar da situação, os cinco seres demonstravam uma amizade extremamente sincera, os quatro bípedes e o quadrúpede.
Ao pensar nisso, lembrou de seus amigos e das zoeiras que faziam. Lembrou-se da cumplicidade que tinham e da alegria de estarem juntos e olhou os homens, a mulher e o cachorro com outros olhos. Imaginou-os vestidos com outras Roupas Sociais e viu seres humanos, pessoas comuns, pessoas como ele. Então, finalmente ele entendeu: não estavam presos a construções criadas pela sociedade, não buscavam a felicidade trazida pelo dinheiro, pela satisfação material, pois esta não era acessível a eles, mas sim, viviam a felicidade em estado bruto, aquela experimentada, não procurada, aquela que está nas coisas simples e que não podem ser desmanchadas, uma felicidade compartilhada, uma felicidade sólida.
Seu ônibus chegou ao ponto, as pessoas se apertavam para entrar, os que já estavam dentro reclamavam, os que queriam subir também. Todo mundo se acomodou e o motorista partiu. O ônibus se foi, Raul ficou. Ele atravessou a rua e foi em direção ao seus iguais. Tirou a Roupa Social que vestia e desafrouxou a gravata. Chegou perto dos homens que estavam batendo palmas, marcando o ritmo da música que cantavam e fez o mesmo. Logo ofereceram-lhe um gole de cachaça, ele tomou e voltou as palmas. Raul se sentiu feliz, feliz em estado sólido. Sabia que não estava preparado para se libertar de todas as construções e cobranças da sociedade, não era tão corajoso assim, logo voltaria para sua felicidade “fabricada”, mas pelo menos hoje viveria aquilo. Desistiu de ir trabalhar naquele dia, os papéis que tinha que preparar para sua primeira reunião como chefe não eram tão importantes assim, e continuou batendo palmas. Cantaram, beberam e almoçaram na casa de Raul. Ele passou o dia inteiro com seus novos amigos. Foi o dia mais feliz de sua vida, ele descobriu a essência do que chamam de Felicidade.

domingo, 10 de agosto de 2008

Conto VI - Mundo Playmobil

João chegou na casa dos seus pais. Fazia meses, quase um ano, que não os visitava, muito trabalho na capital. Seus pais moravam em uma cidade do interior onde todos se conheciam, o ar era puro, o tempo era outro, tudo era diferente, aquela cidade era quase uma Arcádia, perdida no meio do Estado de São Paulo.
A visita de João não era uma visita comum. Seus pais iriam mudar de casa depois de passarem toda as suas vidas naquele local, criado seus filhos, João e Paulo, este último morto em um acidente de carro, construído uma história. Embora aquela casa enorme, se comparada aos apartamentos de São Paulo, não tivesse nenhum registro físico, uma prova dos acontecimentos ali passados, suas paredes, seus móveis estavam repletos de memórias. Era impossível para o casal de velhinhos olhar o balanço preso na macieira em frente a entrada e não lembrar de João e Paulo se balançando. Os objetos contavam uma história que só poderia ser revivida na memória das personagens que ali moraram.
Os pais de João, dona Margarida e seu Faustino, não queriam se mudar, porém, uma empresa iria construir no terreno que cerca o pequeno sítio deles, um novo condomínio de luxo. A Arcádia perdida tinha sido descoberta, venderiam a “paz”, a “natureza” do lugar por um preço bem alto, para trazer um “relax” para aqueles que têm dinheiro para pagar. Ofereceram uma grana alta para que o casal saísse de lá, dinheiro esse que compraria até uma das casas do super condomínio. A princípio eles recusaram, do que adiaria saírem de lá, estavam ali já há muito tempo e, além do mais, esse dinheiro não serviria para muita coisa. Não pensavam em dinheiro, a dinâmica era outra na vida dos dois velhinhos, porém, começaram a receber algumas ameaças por telefone, fato o qual João não sabia, Margarida decidiu que seria melhor se não contassem para ele, e resolveram aceitar o dinheiro.
O casal mudaria para cidade vizinha, um pouco maior do que a antiga, mas quase tão pacata. Compraram um novo sitio em um bairro afastado. Não quiseram comprar uma casa no condomínio. Aquele local que era só deles, até o fim do ano estaria cheio de ricaços metidos a besta. Eles nunca se acostumariam com esses novos vizinhos.
A visita de João foi, então, por esse motivo. Ele aproveitaria o final de semana prolongado para ajudar seus pais a empacotar e a fazer a mudança das coisas para a nova casa. Empacotar, esvaziar, desmontar os objetos foi relativamente rápido, apenas um dia de trabalho. No final da tarde, já com quase tudo guardado sua mãe pediu-lhe mais um favor. Dona Margarida pediu ao filho que fosse até o sótão e olhasse para os brinquedos, fotos, cadernos, entre outra coisa de sua infância, para ver o que ele iria querer levar com ele. João lhe disse para se livrar de tudo aquilo, pois nada daquilo servia mais, porém, ela insistiu.
João subiu ao cômodo onde seu Faustino guardava as coisas “antigas” da casa, o casal tinha um sério problema para se livrar dos objetos sem uso. Lá, aquele homem que já tinha passado dos trinta anos, achou inúmeras coisas. Ferros de passar quebrados, pneus antigos, caixas com fotos e cadernos, com pregos, parafusos e ferramentas, uma televisão em preto e branco que ainda funcionava, tudo isso deveria estar ali há anos. João também achou seus brinquedos, todos postos numa prateleira, feita com muito esmero por seu Faustino, a qual João ajudou a construir na infância. Sua bola de futebol estava ali, mucha deveras, mas estava ali, pedindo para ser chutada novamente, seu peão, umas raquetes de frescobol, uma pipa, alguns bonecos e, o que chamou mais atenção de João, uma casinha de brinquedo montada com bloquinhos de madeira.
O homem, com a cara espantada por aquilo ainda existir, pegou o objeto, fitando-o por alguns minutos. João não conseguia acreditar, ele lembrava claramente do dia que montou aquela casinha pela única e última vez. Como um quebra-cabeça emoldurado aquela “construção” ainda permanecia intacta na prateleira de seu Faustino. João costumava dizer que tinha construído uma casa igual a que ele morava. Ele não se lembrava mais porque nunca mais mexeu com aqueles bloquinhos, mas a permanência daquilo, intocável, e lutando contra a lógica – montar, desmontar e montar de novo - do próprio brinquedo, o intrigou.
Como em uma epifania, João viu naquela casinha montada com frágeis bloquinhos de madeira uma das melhores metáforas para a vida e o mundo em que vivemos. João pensou quão efêmeras sãos as coisas, assim como os bloquinhos. Aquele brinquedo, estar ali intacto, vai não apenas contra a lógica do brinquedo, como também a própria lógica da vida. Tudo em nossos dias, são peças substituíveis, assim as pessoas vivem. As roupas, os sapatos, os celulares, as casas, os empregos, os amigos, os amores, tudo apenas uma passagem.
João lembrou dos seus amigos de infância, todos se casaram e se mudaram, foram cuidar das suas vidas e não os vêm a muito tempo, nem sequer um telefonema, nada Suas namoradas, todas “mulheres da sua vida”, “amores eternos”, nenhuma ficou para ver como anda sua vida, nem para ser eterno. Lembrou também de todos os empregos, cargos e funções pela qual passou. Em todos os lugares em que trabalhou teve grandes amigos. Onde estão eles agora? Quantos celulares já teve? Desde que se mudou para São Paulo em quantas casas já morou? Tudo efêmero, apenas algumas pessoas e objetos permaneceram ao longo dos anos.
Somos peças na vida de outras pessoas, a lógica da vida é a mesma do brinquedo – montar, desmontar e montar de novo -, o problema é que quando acabamos de construir algo, seja por insegurança, seja pelo fato das “peças” não caberem mais na “construção”, olhamos o “objeto” e pensamos: não gostei, poderia estar melhor. Montamos coisas que provavelmente não gostaremos no final, construímos casas as quais não iremos querer morar. Destruímos tudo e começamos uma nova empreitada. Tudo que é sólido desmancha no ar.
João voltou a si com a voz de sua mãe lhe chamando para jantar. O brinquedo ficou, seus pais ficaram, alguns amigos ficaram. Por que essas coisas subverteram a lógica da vida, por que permaneceram? Em que bases foram construídas essas relações? O que vale realmente a pena construir e não mexer mais, como aquele brinquedo? Quais peças não são mudadas?
João fechou a porta do cômodo atrás de si e desceu as escadas se preparando para o último jantar naquela casa. Amanhã a tarde começariam a mudança. Olhou em volta, seus pais sentados na mesa, dona Margarida colocando macarrão no prato de seu Faustino, os móveis antigos de sua infância, os pratos, os talheres, tudo cheirava a história. A casa não conseguiu subverter a lógica da vida, precisa ser sacrificada por um “bem maior”, a tranquilidade de pessoas ricas. Ela seria apenas mais uma peça a ser mudada pelo sistema. Enquanto seus pais oravam agradecendo a refeição, ele pensou: estou desenganado, sei bem como o mundo funciona, espero conseguir entender porque as coisas permanecem e aceitar quando as peças mudarem na minha vida. Abriu os olhos e aproveitou o resto da noite com seus pais.